Otosclerose foi tema do 48º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia

Otosclerose foi tema do 48º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia

otosclerose

Otosclerose: Acabo de voltar da linda cidade de João Pessoa onde ocorreu o Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia de 2018. Participei de uma mesa redonda (debate) sobre tratamento de otosclerose e decidi escrever sobre as novidades nessa questão.

A otosclerose é uma doença óssea dos ossos do ouvido, principalmente do osso da cóclea. É de origem genética, mais comum em mulheres e normalmente cursa com surdez progressiva em uma ou nas duas orelhas. Pode estar associada a zumbido e tonturas. Está descrita há muitos anos, e muito já se fez na tentativa de curá-la ou de tratar sua surdez.

Para entender a otosclerose é preciso entender como funciona a audição. A cóclea (caracol em latim) é o nosso órgão de audição. Ela é revestida por osso por toda a sua superfície, exceto em duas “janelas”, nas quais duas membranas estão expostas. Chamamos essas janelas de janela oval e de janela redonda. Na janela oval, articula-se o estribo, o último e menor osso da cadeia ossicular do ouvido (martelo, bigorna e estribo). A janela redonda fica livre. Normalmente, a vibração do som para dentro da cóclea entra através da vibração do estribo, propaga-se através de líquidos e membranas dentro da cóclea e finalmente se dissipa pela saída da vibração pela janela redonda. https://www.youtube.com/watch?v=PeTriGTENoc&feature=youtu.be

Na otosclerose, o osso da cóclea se remodela. Ele fica mais espesso e com diferente densidade. Esse espessamento do osso da cóclea pode começar a cobrir o estribo e dificultar a sua movimentação, diminuindo a passagem da vibração sonora para o interior da cóclea e, consequentemente, causar surdez (surdez do tipo condutiva). Em alguns casos, essa doença do osso pode chegar até o interior da cóclea acometendo as estruturas como membranas e ligamentos. Quando isso ocorre, a fisiologia normal da cóclea fica comprometida e, consequentemente, teremos surdez (surdez do tipo neurossensorial). Ou seja, existem dois mecanismos diferentes de surdez na otosclerose, um que causa surdez condutiva e outro que causa surdez neurossensorial. A surdez condutiva é mais frequente e os dois tipos podem ou não ocorrer no mesmo paciente.

O tratamento da otosclerose pode ser medicamentoso ou cirúrgico. Em relação ao tratamento clínico (com remédios), os resultados não são ideais e as medicações trazem efeitos colaterais importantes. Normalmente, as medicações não servem para melhorar a surdez, mas para estabilizar a evolução do quadro. No passado, havia muita dúvida entre os médicos sobre o uso de medicações em otosclerose e muitos ainda não acreditam que exista benefício. Ou seja, trata-se de um assunto controverso entre profissionais. Minha opinião pessoal no momento é que, mais e mais, aparecem evidências na literatura médica favoráveis aos remédios. O problema são os efeitos colaterais, principalmente gástricos. São medicações que devem ser tomadas com posologia específica.

Em relação ao tratamento da surdez na otosclerose, podemos separar em duas formas: aparelhos auditivos e cirurgias da cadeia ossicular.

Aparelhos auditivos hoje estão tecnologicamente muito avançados. Todos aqueles problemas que haviam antes, como tamanho grande dos aparelhos e qualidade ruim do som, estão superados. Temos aparelhos auditivos invisíveis e com som quase perfeito. Temos inclusive aparelhos com bateria recarregável, com conectividade para celular, com tratamento de zumbido e muito mais. Pacientes com otosclerose especialmente costumam se adaptar muito bem aos aparelhos auditivos convencionais devido a uma característica específica dessa doença, a boa discriminação sonora vista na maioria dos casos.

O tratamento cirúrgico pode ser indicado em casos específicos, não para todos. A cirurgia chama-se estapedotomia. Nesta cirurgia é feita uma remoção do ossículo chamado estribo e é colocado no seu lugar uma pequena prótese de titânio ou de téflon. Como nessa doença causa pode haver uma fixação da base do estribo na cóclea, impedindo a sua correta vibração, a troca do estribo por uma prótese (não fixa) melhora a condução do som para o interior da cóclea.

Existem casos mais avançados, no quais a doença já acometeu muito o osso da cóclea e causou uma perda auditiva sensorial muito grande. Em casos assim, felizmente raros, temos a possibilidade de tratamento com a colocação de um implante coclear. O implante coclear nos casos de otosclerose apresentam resultados variados, sendo indicado somente quando não há mais benefício do paciente com outros métodos de reabilitação. https://clinicagobbo.com/otologia/

É sempre muito bom poder trocar experiências com colegas de todo o país no Congresso Brasileiro de Otorrino. Fico feliz em ver que continuamos evoluindo no tratamento da otosclerose mesmo após todos esses anos. Se você tem o diagnóstico de otosclerose, mantenha acompanhamento de rotina com o seu médico otorrinolaringologista.

“As informações aqui colocadas são de caráter informativo. Cada paciente possui suas particularidades e deve ser avaliado e tratado de forma individualizada. Se você tem algum problema de saúde, procure um médico especialista.”

Dr. Henrique Gobbo
CRM – 117688 SP