Zumbido tem cura afinal?

Zumbido tem cura afinal?

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Zumbido: Com certeza muitos de vocês que acessaram essa página estão ansiosos pela resposta, então lá vai: zumbido tem tratamento na maioria dos casos e cura dependendo da causa do zumbido. Explico:

Primeiramente temos que entender o que é zumbido. Tinitus (o nome correto do zumbido) é uma sensação de som diferente da realidade. Pode ser um apito ou um chiado constantes em um dos ouvidos, uma sensação pulsátil, uma sensibilidade a sons altos, uma sensação de batidas rítmicas no ouvido, etc. O zumbido em si é um sintoma, comum a diversas doenças, assim como a dor de cabeça é um sintoma de diversas doenças diferentes (sinusite, enxaqueca, tensional, etc). Sendo um sintoma, é possível tratar o zumbido como consequência ou tratar a sua causa, tratar o sintoma com um tratamento mais inespecífico (que melhora quase todos os casos de zumbido) ou tratar a causa do zumbido com um tratamento mais específico.  No exemplo da dor de cabeça, seria o mesmo que dizer que é possível tratar a dor de cabeça usando uma dipirona ou usando um antibiótico para tratar a sinusite, por exemplo.

Pensando em tratamento da causa do problema, vamos falar das principais:

  • Surdez: a surdez é sem dúvida a principal causa do zumbido. Qualquer tipo de surdez, transitória ou definitiva, pode cursar com zumbido. Os casos mais frequentes de surdez ocorrem por excesso de cera nos ouvidos, perda auditiva induzida por ruído, presbiacusia (perda auditiva da idade), otosclerose, perda auditiva imunomediada, surdez súbita e traumas. Já escrevi detalhadamente sobre todas essas doenças e seu tratamento na página de otologia que você pode acessar clicando aqui.  Resumindo, algumas dessas doenças podem ser tratadas com remédios e outras podem ser tratadas com aparelhos auditivos. Em ambos os casos, o zumbido melhora muito, podendo desaparecer.
  • Doenças metabólicas: a cóclea praticamente não tem reservas energéticas e seu metabolismo depende diretamente do suprimento de oxigênio e de glicose oriundos do sangue. Assim, alterações metabólicas mínimas, como variação da insulina, da glicose ou de hormônios, podem desencadear zumbido. Alguns estudos apontam para o colesterol alto como um fator causal de zumbido. O tratamento dessas alterações muitas vezes pode ser feito apenas com dieta, com melhora do sintoma.
  • Sequelas de otites: pacientes que tiveram otites importantes na infância ou mesmo na idade adulta podem apresentar um zumbido como sequela. A toxicidade das infecções ou mesmo dos antibióticos e demais medicações usados no tratamento podem lesionar parte da orelha interna.
  • Causas cardiovasculares: a pressão alta também é uma causa importante de zumbido, tanto direta como indiretamente. Muitas vezes o zumbido melhora após o controle da pressão. Outras vezes, a pressão alta pode causar um distúrbio de irrigação do labirinto que será mais difícil de controlar apenas com a diminuição da PA.
  • Causas neurológicas: doenças desmielinizantes, como a esclerose múltipla, podem causar o zumbido. Sequelas neurais também, como quadros pós-meningite e pós-AVC. Alguns tumores também podem ser causa.
  • Causas farmacológicas: medicações podem causam tinitus. Na verdade, aparentemente qualquer medicação pode, mas algumas são mais comuns, como ácido acetil salicílico (AAS), anti-inflamatórios, antibióticos, medicação para baixar colesterol, antidepressivos, diuréticos e quimioterápicos. A suspensão da medicação pode melhorar o sintoma. Consumo de álcool, cafeína e demais drogas também podem causar zumbido.
  • Causas odontogênicas: muitos estudos relacionam zumbido às disfunções da articulação têmporo-mandibular (ATM). Isso pode parecer meio improvável num primeiro momento, mas há uma explicação científica que leva em conta a inervação da região do ouvido. O tratamento da disfunção também pode melhorar o tinitus.
  • Causas musculares: contraturas miofasciais na região do pescoço, ombro, pelve e musculatura mastigatória já foram comprovadamente associadas ao zumbido. O mecanismo também parece estar ligado à inervação local. Outra causa muscular pode ser a mioclonia do músculo tensor do tímpano, que pode dar uma sensação rítmica nos ouvidos parecida ao “bater de asas de uma borboleta” dentro do ouvido. Relaxantes musculares, acupuntura, quiropraxia, fisioterapia e atividades físicas posturais podem ajudar.
  • Doenças do labirinto: a Síndrome de Ménière é uma das causas possivelmente tratáveis do zumbido. Falo sobre essa síndrome no texto sobre Labirintopatias veja aqui.
  • Causas psicogênicas: ansiedade e depressão são causas e consequências do zumbido, o que pode ocasionar um ciclo vicioso indesejado (o zumbido piora a ansiedade que piora o zumbido). Infelizmente, ansiedade é algo extremamente comum no nosso dia-a-dia. Costumo comentar com os nossos médicos residentes que a incidência de doenças influenciadas pela ansiedade, como o refluxo faringo-laríngeo por exemplo, está crescendo exponencialmente na nossa prática clínica. O mesmo vale para o zumbido psicogênico. É comum o paciente vir ao consultório com quadro de zumbido iniciado após um evento traumático, como uma violência ou uma perda sofrida. Nestes casos, o tratamento pode ser mais complexo e vai depender muito da aceitação e da atitude do paciente.

Existem outras causas para o tinitus, mas as principais são as acima mencionadas. Agora, podemos também tratar o sintoma zumbido isoladamente em casos de causa intratável (como uma sequela de otite ou neurológica, por exemplo).

Existem medicações, na minha opinião numa graduação de efeito pretendido e efeito colateral. Medicações com mais efeito sedativo de zumbido tendem a ter mais efeitos colaterais e vice-versa, mas há exceções. De qualquer forma, o tratamento medicamentoso do zumbido é muito individualizado. Não é possível uma fórmula mágica para o zumbido, infelizmente. Esse tipo de tratamento requer muito conhecimento, experiência e paciência do doente e do médico. Muitas vezes, a ansiedade causada pelo zumbido é um fator que atrapalha muito o tratamento e pode desestabilizar a relação médico-paciente. Tratamentos devem ser feitos por períodos longos para que se possa avaliar corretamente o resultado e maus resultados podem ser necessários para que se possa tatear qual a medicação ideal para aquele paciente. A pressa de melhora e a troca constante de médicos só vai atrapalhar o tratamento.

Também é possível o uso de aparelhos auditivos que mascaram o zumbido. Eles produzem um ruído que disfarça, ameniza ou mesmo encobre. O ruído normalmente é um chiado mais agradável. Este tratamento é opção para casos de zumbido mais grave e que não melhoram com tratamentos mais simples.

Outras terapias também são possíveis, como terapia de adaptação ao zumbido (TRT), biofeedback e hipnose, com resultados variáveis.

Ou seja, respondendo novamente à pergunta: zumbido tem cura? Depende! Pessoalmente, eu entendo que se considerarmos cura como a ausência do zumbido sem a necessidade de medicações contínuas, terapias ou aparelhos contínuos, então em alguns casos teremos cura sim, mas em outros não. Agora, sempre há tratamento, sempre há perspectiva de melhora. Algumas vezes, o caminho pode ser mais longo e exigir mais paciência do doente (paciente), mas vale a pena procurar um especialista para melhorar a sua qualidade de vida.

“As informações aqui colocadas são de caráter informativo. Cada paciente possui suas particularidades e deve ser avaliado e tratado de forma individualizada. Se você tem algum problema de saúde, procure um médico especialista.”

Dr. Henrique Gobbo
CRM – 117688 SP